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Katalin Karikó: a cientista rebaixada que ganhou o Nobel

Foto: Christopher Michel, CC BY-SA 4.0, recortada.

Em 2020, enquanto um novo coronavírus se espalhava pelo mundo, cientistas corriam para criar uma vacina, e alguns apostaram no RNA mensageiro, o mRNA. Havia muito tempo, o sistema imunológico tratava o mRNA feito em laboratório como um invasor. Katalin Karikó, filha de um açougueiro da Hungria, tinha passado anos estudando essa molécula enquanto os financiadores recusavam seus pedidos, uma vez após a outra. O objetivo dela era fazer o corpo aceitar o mRNA sem perigo, para que as próprias células recebessem a instrução de fabricar o remédio.

Adeus à Hungria

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1985

O laboratório de Katalin Karikó em Szeged perde o financiamento, e o cargo dela é extinto. Karikó decide continuar a pesquisa no exterior, e Robert Suhadolnik a convida para o laboratório dele na Temple University, na Filadélfia.

1985

A Hungria só deixa a família de Katalin Karikó sair do país com US$ 100. Karikó e o marido vendem o carro e, como Karikó contou depois, escondem cerca de US$ 1.200 dentro do ursinho de pelúcia da filha pequena. Depois, a família voa para a Filadélfia.

1988

Katalin Karikó aceita uma oferta de emprego em outro lugar, o que irrita o chefe dela na Temple, Robert Suhadolnik, contou Karikó depois. Segundo o jornalista Gregory Zuckerman, Suhadolnik diz às autoridades de imigração que Karikó está ilegalmente no país, e Karikó contrata um advogado. Por causa da disputa judicial, o novo empregador retira a oferta, e Karikó então aceita um emprego em Bethesda.

Penn, sem estabilidade

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1989

A Universidade da Pensilvânia (Penn) contrata Katalin Karikó como professora assistente de pesquisa, um cargo sem estabilidade que depende de financiamento. O salário de Karikó vem das verbas de pesquisa de um cardiologista, Elliot Barnathan. Na Penn, Karikó começa a trabalhar com mRNA.

1990

Katalin Karikó envia seu primeiro pedido de financiamento para uma terapia com mRNA. É recusado. Vêm mais recusas, de órgãos públicos e financiadores privados, ano após ano.

O salário de Karikó na Penn nunca vai passar de US$ 60 mil por ano.

1995

Katalin Karikó não tem verbas de pesquisa, e a Penn dá a Karikó duas opções: sair ou aceitar um rebaixamento e um corte no salário. Mais ou menos na mesma época, Karikó descobre que tem câncer, e um problema de visto prende o marido dela na Hungria. Karikó aceita o rebaixamento e continua com o mRNA.

Karikó perde o caminho para virar professora titular, e parte do salário.

Parceiros na Penn

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1997

Elliot Barnathan sai da Penn, e Katalin Karikó perde o lugar no laboratório dele. Um jovem residente de neurocirurgia, David Langer, convence o chefe do departamento a dar a Karikó um laboratório e um salário.

1997

Katalin Karikó conhece Drew Weissman, um imunologista recém-chegado à Penn, na fotocopiadora, onde os dois estão copiando artigos científicos. Weissman quer fazer vacinas. Karikó diz que pode fazer o mRNA.

1997–2004

Katalin Karikó faz o mRNA, e Drew Weissman o testa em células do sistema imune. As células tratam o mRNA de laboratório como um invasor, e vem uma inflamação forte. Durante anos, os dois não conseguem conter a reação.

2004

Katalin Karikó e Drew Weissman trocam uma das quatro letras químicas do mRNA, a uridina, por uma forma levemente modificada, a pseudouridina. A inflamação quase some. A pista vem do tRNA, uma molécula parecida, com letras modificadas, que não causa inflamação.

2005

Katalin Karikó e Drew Weissman enviam o resultado à Nature, que o devolve em um dia, sem revisão. Os editores o chamaram de “incremental”, e a Science e a Cell também se recusaram a avaliá-lo, como Karikó e Weissman contaram depois. O artigo sai na Immunity.

2005

Drew Weissman diz a Katalin Karikó que o telefone vai tocar com convites. Não toca. “Ninguém ligou”, disse Karikó depois.

2006

Katalin Karikó e Drew Weissman fundam a própria empresa, a RNARx. Mais tarde, a RNARx recebe verbas do governo americano para pequenas empresas, para testar mRNA modificado.

2008

Katalin Karikó e Drew Weissman mostram que o mRNA modificado também produz muito mais proteína que o mRNA comum. Mais um obstáculo aos remédios de mRNA, a baixa produção de proteína, está superado.

agosto de 2008

Susan Francia, a menininha cujo ursinho levou as economias da família, rema no oito feminino dos Estados Unidos em Pequim. Francia ganha o ouro olímpico. A mãe de Francia, Katalin Karikó, ainda não tem um cargo com perspectiva de estabilidade.

2010

Katalin Karikó e Drew Weissman tentam licenciar para a RNARx a patente deles, que pertence à Penn. Segundo o jornalista Gregory Zuckerman, a Penn quer uma participação majoritária, e os dois lados não chegam a um acordo. A Penn licencia a patente com exclusividade para a mRNA RiboTherapeutics, uma pequena empresa de Wisconsin.

A RNARx perde os direitos sobre a descoberta de seus fundadores.

2010

Derrick Rossi, cientista de células-tronco de Harvard, usa o mRNA modificado do artigo de 2005 de Katalin Karikó e Drew Weissman. O trabalho de Rossi ajuda a criar a Moderna, nome que vem de “modified RNA” (RNA modificado).

Mainz

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2013

Em março de 2013, a AstraZeneca paga US$ 240 milhões à Moderna, e Katalin Karikó contou depois que o acordo foi um dos motivos pelos quais ela soube que precisava deixar a vida acadêmica. A Penn se recusa a devolver o cargo docente de Karikó e a considera “sem nível para o corpo docente”, segundo Karikó. Forçada a se aposentar, Karikó, agora com 58 anos, vai para a BioNTech, uma pequena empresa de Mainz sem site.

Karikó fica só com um vínculo de professora afiliada na Penn e passa anos indo e voltando da Alemanha.

2017

Katalin Karikó apresenta Drew Weissman ao chefe da BioNTech, Uğur Şahin. Weissman mostra a Şahin uma vacina de mRNA modificado que protege animais contra o zika. A BioNTech, até então focada em câncer, começa a financiar vacinas contra infecções.

junho–julho de 2017

A Cellscript e sua empresa-irmã, a mRNA RiboTherapeutics, têm direitos sobre a patente de Karikó e Weissman. As duas empresas de Wisconsin licenciam a patente para a Moderna e depois para a BioNTech. As duas futuras fabricantes de vacinas contra a Covid passam a ter direitos sobre ela.

A pandemia

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11 de janeiro de 2020

Cientistas chineses publicam na internet o código genético de um novo coronavírus. Segundo o New York Times, a BioNTech e a Moderna projetam vacinas de mRNA em questão de horas a dias. As duas usam mRNA modificado, com base na descoberta de Katalin Karikó e Drew Weissman.

13 de março de 2020

Depois de anos indo e voltando de Mainz, Katalin Karikó volta para casa, na Pensilvânia, num dos últimos voos. Nesse dia, os Estados Unidos declaram emergência nacional. A data é também o aniversário do marido de Karikó.

17 de março de 2020

A BioNTech e a Pfizer fecham um acordo para desenvolver juntas uma vacina contra a Covid. A vacina usa o mRNA modificado em que Katalin Karikó trabalha há décadas.

8 de novembro de 2020

Chegam os primeiros resultados do grande estudo da vacina: a vacina funciona. Katalin Karikó disse depois que já esperava que a vacina funcionasse. Karikó come uma caixa inteira de Goobers, amendoins cobertos de chocolate.

2 de dezembro de 2020

A agência reguladora de medicamentos do Reino Unido autoriza a vacina da Pfizer-BioNTech. É a primeira vacina contra a Covid autorizada no Ocidente.

8 de dezembro de 2020

Em Coventry, Margaret Keenan, de 90 anos, é a primeira pessoa a receber a vacina da Pfizer-BioNTech fora de um estudo. O mRNA da vacina é modificado, com base na descoberta de Katalin Karikó e Drew Weissman.

18 de dezembro de 2020

Katalin Karikó e Drew Weissman tomam suas doses da vacina na Penn, a universidade que rebaixou Karikó. Médicos e enfermeiros aplaudem, e Karikó chora, contou o New York Times.

2 de outubro de 2023

Antes do amanhecer, o telefone toca na casa de Katalin Karikó, perto da Filadélfia. Karikó e Drew Weissman ganharam o Prêmio Nobel. No começo, Karikó acha que pode ser trote.

10 de dezembro de 2023

Katalin Karikó recebe o Prêmio Nobel em Estocolmo. Até então, mais de 13 bilhões de doses de vacina contra a Covid já foram aplicadas no mundo.

Em 1995, a Penn rebaixou Katalin Karikó, e mais ou menos na mesma época ela recebeu um diagnóstico de câncer. Karikó continuou com o mRNA.

E se Katalin Karikó tivesse desistido do mRNA quando a Penn a rebaixou?

  1. Talvez as vacinas contra a covid tivessem chegado mais tarde.

    Em dezembro de 2020, o Reino Unido autorizou a vacina de mRNA da Pfizer-BioNTech, menos de 11 meses depois de o código genético do vírus ser publicado na internet.

  2. Talvez as vacinas personalizadas contra o câncer estivessem mais distantes.

    Num estudo divulgado em 2023, 79% dos pacientes com melanoma que receberam uma vacina de mRNA personalizada estavam vivos e sem recidiva após 18 meses, contra 62% sem a vacina.

A Penn forçou Katalin Karikó a sair.

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